Crise política ou crise moral?

O socialismo começa a apresentar os seus frutos
O socialismo começa a apresentar os seus frutos

Quando pensei que estávamos no fundo do poço da corrupção, ao ver as complicações do final da administração petista no Brasil, eis que surge uma Câmara Federal a distorcer o projeto de iniciativa popular “das 10 medidas”, no meio de uma madrugada de tragédia nacional. Segue um Senado Federal em confronto com o STF, cada um tentando defender os próprios benefícios. Aqui em MS, os vereadores de Ribas do Rio Pardo igualam o salário do prefeito da cidade, que tem aproximadamente 21 mil habitantes, ao do governador do Estado de São Paulo. Isso para falar só do Brasil. No mundo inteiro, as notícias de guerras, abusos, fome, violência e corrupção, explodem como fogos de artifício na virada do ano.

Refletindo um pouco, chego à conclusão de que esta crise não começou agora, mas há muito tempo. Ainda no século XIX, o filósofo russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski escreveu que “se Deus não existe, tudo é permitido”. A afirmação é contestada ainda hoje, adjetivada como preconceituosa para com os ateus, entre outras coisas. O principal argumento é o de que se tal afirmação fosse verdadeira, não haveria ateus que pudessem adotar um comportamento ético, moral, honesto e verdadeiro e, do lado oposto, todos os que professam alguma fé desfrutariam de tais virtudes em profusão. Como a existência de ateus que possuem um comportamento ético e verdadeiro e também existem religiosos corruptos, mentirosos e moralmente devassos, a conclusão lógica SERIA que a afirmação de Dostoiévski é falsa.

Assim, sendo a história da humanidade uma farta colheita de provas, permito-me analisar alguns acontecimentos.

Por volta do ano 400 a.C. viveu na região onde hoje é o Nepal, o jovem príncipe Siddhartha Gautama. Apesar dos esforços do pai, o rei Suddhodana, para que o filho não tivesse contato com a pobreza e sofrimento humano, o jovem descobriu a dor, a doença e a morte além dos muros do palácio. A partir daí, o príncipe iniciou um processo de mudança de vida que o transformou em líder espiritual e criador de uma doutrina e moral filosóficas que norteiam ainda hoje a vida monástica dos seguidores do Budismo. O objetivo dessa filosofia religiosa é distanciar o ser humano das limitações, corrupções e sofrimentos impostos pela vida material. A filosofia budista, baseada na religiosidade védica, é a base da doutrina moral enraizada na cultura oriental contemporânea de países como Índia, China, Japão, Coreia, com seus respectivos reflexos nos seguidores das filosofias religiosas no lado ocidental do planeta.

Séculos depois, a partir do Judaísmo, nasce o Cristianismo, espalhado pela virtude do apóstolo Paulo e pela mão forte do imperador Constantino, por todo o império Romano. Até então, Roma era um Estado teocrático, que tinha na figura do imperador a sua maior divindade, mas que permitia uma versão latina para os deuses da mitologia grega. Esse panteão era fundamental para explicar as virtudes e fraquezas humanas e para justificar a forma de praticar a justiça e a política na sociedade da época. Com o advento do cristianismo, a antropologia do Império Romano foi fortemente influenciada pelos valores humanos e sociais propostos pela filosofia cristã. Foi nesse contexto que se consolidou o direito romano, ainda hoje usado como referência no formato jurídico das nações latinas em todo o mundo, e também influencia mesmo nas nações em que se adota o formato do direito anglo saxão.

Assim sendo, o pensamento religioso, seja da mitologia grega, seja budista, seja judeu ou seja cristão, foi a origem da ética formal, da moral social e da lógica racional que permeiam a história da humanidade. A negação da divindade é, por consequência, a negação da possibilidade ética no comportamento humano, mesmo que os que se professam ateus consigam adotar um comportamento coerente com as necessidade sociais de honestidade, harmonia e respeitabilidade para com os semelhantes.

O que isso tem a ver com a crise política do Brasil? Tudo. A base do pensamento de Marx e Engels é o tratamento reverencial e dogmático do Estado como substituição às crenças religiosas. E foi esse pensamento que contaminou a sociedade brasileira a partir do fim do regime militar. Nossa Constituição de 1988 deu poderes e direitos aos cidadãos, sem exigir os deveres correspondentes. A Escola de Frankfurt chegou ao Plano Nacional de Educação e colocou Gramsci, Marcuse, Piaget e a versão tupiniquim de pedagogia de esquerda, Paulo Freire, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996. E lá e vão 20 anos de doutrinação esquerdista disfarçada de pedagogia, descendo goela abaixo de quase 3 gerações de brasileiros.

Quando o PT assumiu o governo, já nos anos 2000, esse processo que engatinhava entre os “sociais democratas” do PSDB, acelerou fortemente com as políticas voltadas às minorias que, na verdade, inverteram a lógica da democracia. O governo e a vontade da maioria passaram a ser imposição das ideias minoritárias numa tentativa de impor de forma derradeira a morte dos valores éticos e morais fundamentados nas filosofias religiosas.

A sociedade teve a formação moral e cívica corrompida pela ideologia socialista e agora sofre as consequências na forma de crise. Mas a crise é boa. Ela significa que o pensamento ético não foi erradicado dos indivíduos que ainda conseguem se inconformar com a corrupção em qualquer nível da sociedade, não só nos poderes instituídos. Só lamento que esses indivíduos inconformados são minoria. Mas estão sendo capazes de resgatar as raízes sufocadas da moral e da ética que ainda sobreviveram às quase 3 décadas da semeadura desse monstro propagador da corrupção, chamado socialismo. É a árvore plantada em 1988 que começa a mostrar seus frutos.

 

Euclides Fernandes – jornalista

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Euclides Fernandes

Jornalista no SBT-MS.

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