Banco do Brasil será privatizado; a questão é quando? 

Brasília (DF), 22/11/2016 – Edifício Banco do Brasil – Foto, Michael Melo/Metrópoles

O Banco do Brasil será privatizado. E isso não é uma previsão astrológica ou palpite econômico: é uma certeza política. A questão é QUANDO isso irá ocorrer.

Como quem permaneceu lá dentro durante 10 anos 1 mês e 6 dias, posso dizer, com conhecimento de causa, que o banco tem sido preparado para este momento desde que começou sua “reestruturação” — um eufemismo criado por gestores petistas, para tentar camuflar a nua e crua realidade: o banco precisava ser saneado antes de vendê-lo.

Desde 2007, a reestruturação do BB tem acontecido em “ondas” — ora essas são simples marolinhas (para fazer referência ao verdadeiro artífice desse desmonte); ora, se revelam verdadeiras tsunamis, chegando sem aviso prévio, de forma demolidora e catastrófica.

Num primeiro instante, o Banco do Brasil erradicou o pagamento de substituições. Na prática, quando um gerente se ausentava por motivo de férias ou licença médica, seu assistente assumia o cargo interinamente, ganhando como tal — e isso gerava um efeito cascata positivo, pois alguém assumia, também, de forma interina, a função do assistente (geralmente um caixa); e alguém assumia a função de caixa substituto — e assim, sucessivamente

Era um jogo de ganha-ganha: os empregados ganhavam, pois, auferiam uma renda maior, ainda que de forma sazional ou ocasional; e ganhava também a empresa, já que em tais ocasiões, as rotinas de serviço não eram tão impactadas, além de ser uma ótima oportunidade de se “treinar, na prática”, toda uma cadeia de eventuais candidatos a sucessores.

Com o fim da substituições, o banco cavou um poço profundo de indenizações trabalhistas: gerentes começaram a ter que assumir responsabilidade de colegas ausentes (o banco chama isso de “lateralidade”), tendo que trabalhar (e ser cobrado!) em dobro, sem receber nada mais por isso. E o pior: assistentes/auxiliares passaram a exercer uma “gerência de fato” (atuavam como se gerente fossem, perante clientes, colegas e chefia — inclusive, com cobrança de metas), e não uma “gerência de direito” — sem poderem assinar contratos ou impostar decisões no sistema (para mascarar um claro desvio de função), e o principal: sem receber salário proporcional ao cargo gerencial (gerando economia de milhões de reais para o banco).

A segunda onda — um tsunami, na verdade — foi a centralização de processos internos (outro eufemismo para mascarar o FIM DE ÁREAS MEIOS e o repasse de tais atividades para EMPRESAS TERCEIRIZADAS).  Com o fechamento e desmonte de uma centena de repartições e órgãos regionais, milhares de empregados se viram obrigado a terem que escolher entre perder o cargo ou mudar-se para outro estado. E mesmo assim, muitos não tiveram seus cargos mantidos…

A terceira onda foi a abertura de capital das subsidiárias e coligadas — o que, lá atrás, eu chamei de “fatiamento do BB”… e tal neologismo acabou pegando. Com isso, tais subsidiárias se tornaram empresas de capital majoritariamente privado — o que significou livrar-se das amarras que o regime jurídico-administrativo impõe (fim da necessidade de concurso para contratação de empregados; teto constitucional para remuneração de cargos de executivos e diretoria; dispensa de licitação para contratação de produtos e serviços, etc). Na prática, tais subsidiárias não são auditáveis por órgãos de controle externo (como CGU, TCU e MPF).

A quarta onda foi o recomeço dos planos de demissão voluntária — prática até então demonizado por sindicalistas e políticos petistas, por terem sido adotadas pelo PSDB; por ironia, quis o destino que os PDVs fossem retomados, justamente, durante a gestão dos petistas no Banco. 

Nessa época, já fora do BB, cansei de alertar meus ex-colegas: “abram os olhos: o banco está passando por um claro processo de downsizing; isso é um ato preparatório à privatização“. Me acusaram de não ser “Otimista” (eram tempos do “nós x eles”, de “otimistas x pessimistas”, lembram?).

Mas por fim, o encerrar do ano de 2016, o tempo me deu razão, já que ocorreu a última onda reestruturante do Banco: o anúncio do fechamento de 400 agências — mas que, segundo estatísticas extraoficiais feitas por sindicatos de bancários, já teria ultrapassado a marca de 500, em razão da transformação de agências em “escritórios digitais”.

Só então o mercado passou a enxergar a privatização como possível e viável! Afinal, sem tomar tais medidas, quem se interessaria em comprar um Mastodonte Ineficiente, Dispendioso e Pouco Lucrativo? Fatalmente, o preço das ações seria derrubado e o banco vendido a preço de banana.

Justiça seja feita, quem tem insistido nessa privatização é o economista, ex-ministro da fazenda e também ex-funcionário do banco, Mailson da Nóbrega.

Já em 2006, ele escrevera:

Nunca, todavia, o BB havia sido posto a serviço de um partido como agora. Dois diretores, entre dirigentes indicados pelo PT mais por sua militância do que por seu preparo (felizmente uma minoria), usaram suas posições para levantar fundos destinados a fins políticos condenáveis e para armar dossiês contra candidatos da oposição

E em 2009, num outro artigo, ele retomava a tese da necessidade de Privatização do BB:

Já não existe falha de mercado que exija um BB estatal. A ingerência do governo indicou que é preciso protegê-lo definitivamente. A saída mais óbvia é a privatização, embora a sociedade ainda não a perceba. A mudança mental requer tempo, talvez mais de uma geração, mas parece ter chegado a hora de começar discutir a ideia.

E agora, em mais um artigo — recentemente publicado em VEJA — Mailson da Nóbrega parece ter acertado aquela sua previsão (“a mudança mental requer tempo”): eis que, com a falência do modelo econômico petista, ressurgiu no Brasil, uma nova geração de liberais. 

PAUSA PARA UMA OBSERVAÇÃO: ainda que eu, particularmente, acredito que tais jovens que se dizem “liberais”, estão vivendo apenas uma “modinha”. O que tenho visto é uma legião de jovens deslumbrados com meia-dúzia de rapazotes presunçosos e pretensamente “apolíticos” — que nunca empreenderam nada, cuja maiores realizações foi mobilizar multidões em páginas de redes sociais ou blogs. A ironia do destino é que os líderes desses “jovens liberais”, estão, quase todos, aboletados em cargos públicos, seja apenas nomeados, seja porque foram eleitos,, surfando na popularidade e visibilidade que ganharam durante as manifestações a favor do impeachment. Nenhum deles teve a oportunidade de mostrar sua competência, seus próprios méritos, na iniciativa privada, ou ainda, mediante aprovação em concurso público. RETOMEMOS O TEXTO.

Com essa geração z gritando “menos Estado”, a privatização do BB entrou, definitivamente, na pauta política e econômica. Por isso, o artigo de Nóbrega parece ser a última pá de terra sobre o féretro do banco:

Em 1995, o BB iniciou sua transformação. Diversificou operações, sofisticou a base tecnológica e ganhou eficiência. Arca, ainda, com o ônus de ser estatal. Tem sede em Brasília. Muda frequentemente a administração e a estratégia. Sofre o custo da fiscalização do Tribunal de Contas da União e da subordinação à Lei de Licitações.

A saída é a privatização. O BB está pronto. (…). Livre do jugo do governo, aumentará a competição no mercado bancário e ampliará o papel de apoio ao desenvolvimento do país.

Muitos poderiam argumentar: “Ah… isso parece uma espécie de recalque, uma ideia fixa desse Mailson da Nóbrega… acho que a privatização do BB seria sua Moby Dick, sua ideia fixa e irrealizável“. Até poderia ser.

Mas quando um outro homem forte da economia diz a mesma coisa — no caso, Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central — em evento promovido por InfoMoney, aí é preciso prestar atenção.

Vejamos o que disse Franco:

Banco do Brasil está pronto para ser privatizado, mas não pode ser comprado nem pelo Itaú nem pelo Bradesco para não gerar problema quando a transação passar pelo Cade“. O economista ressalta que o governo não tem que possuir dois bancos comerciais, ainda mais levando em conta que a União já tem o controle da Caixa. Porém, ele aponta que “a Caixa tem que fazer IPO e apartar do FGTS, assim como o BNDES tem que ser separado do FAT”. 

Concluindo: toda a conjuntura atual nos permite afirmar, com quase 100% de certeza, que o Banco do Brasil será privatizado; a questão que falta ser definida é o QUANDO. E nesse ponto, tudo indica que Temer está disposto a fazê-lo, num gesto de agrado ao mercado e ao empresariado brasileiro — que não podemos esquecer, são fiadores de seu governo, por terem apoiado e financiado as manifestações pró-impeachment.

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Comentário

Teamajormar Almeida

Advogado. Pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho.

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