Tudo agora é lacração? 

Luke (Jahi Winston) e Kate (Peyton Kennedy) são os protagonistas desta nova série da Netflix

Acabo de assistir a primeira temporada de Everything sucks! (Netflix, 2018) e a impressão que se tem é que todas as séries da gigante de conteúdo tem como premissa agradar o “politicamente correto”.

Isso parecer ser uma constante no catálogo da Netflix, desde o lançamento de Sense8 (mas parece que o fracasso da experiência não ensinou nada à empresa de Reed Hastings).

O aceno às pautas da esquerda permeiam TODOS os lançamentos da Netflix: a liberação das drogas está lá, representada por Desjointed; o anti-Trumpismo  a tônica em One Day at a Time; o pró-Hillarismo estava escancarado em House of Cards (e nunca foi tão conveniente ter explodido as acusações sobre Kevin Spacey, né?).

Aliás, eu ainda preciso escrever sobre como transformaram a ótima One Day At a Time — um remake primoroso, adaptando a trama dos anos 70, aos dias atuais, de forma leve e bem humorada, brincando saudavelmente com os esteriótipos dos imigrantes cubanos — num manifesto panfletário anti-Trump e pró-feminismo-lesbiânico.

Tudo é uma merda!

Mas voltemos a falar de Everything sucks. O título deste artigo faz referência ao próprio título da série — “Tudo é uma merda”.

Parece que essa escolha corporativa da Netflix, em querer agradar minorias, está começando a prejudicar a qualidade artística de suas produções. E isso fica latente em Everything. 

O enredo tem um ótimo clinch: o saudosismo dos anos 90.

Ambientando a trama no começo dessa década, o seriado faz um ótimo fan service ao entregar muitas (muitas, mesmo!) referências: fitas K7 e VHS surgem a todo instante na tela; marcas relevantes, como MTV e Blockbuster estão lá; o figurino, carros e ambientação são fiéis à moda grunge e tons pastéis que tanto caracterizaram essa década.

Senta que lá vem spoiller 

A trama orbita em torno de um grupo de três amigos nerds Luke (Jahi Winston), McQuaid (Rio Mangini) e Tyler (Quinn Liebling) —  que acabam de ingressar na high school; e para superarem a dificuldade de interação social com os demais alunos veteranos, decidem participar do “grupo de áudio e vídeo” da escola.

Um negro brilhante (Luke), um indiano superdotado (McQuaid) e um branco estúpido (Tyler) formam, portanto, um típico trio de “bons amigos” adolescentes americanos, que convivem desde a mais tenra infância, e juntos, enfrentam os dilemas típicos da adolescência.

Mas eis que um deles se apaixona, à primeira vista, pela camera girl (Kate) do telejornal da escola, que vem a ser filha do Diretor do Colégio (Mr. Messner).

Não bastasse o dilema sentimental, eis que eclode uma rixa entre o “grupo de vídeo” (dos nerds) com o “grupo de teatro” (dos descolados), após um incidente no auditório da escola, que destruiu todos os cenários e figurinos de uma peça que pretendiam estrelar.

Aqui, Everything apela para o típico clichê: representando os descolados da trupe teatral, temos um casal de namorados típico de filmes adolescentes: a garota sexy/burra/vulgar que, de tão apaixonada, não se reconhece subjugada pelo bonitão/popular/macho alfa da escola.  

A trégua entre as duas gands só se dá quando ambos os grupos — numa improvável união de forças — acabam tocando um projeto conjunto: roteirizar, estrelar, filmar e editar um filme!

Apelo fácil ao politicamente correto

E é neste ponto que a série começa a descambar. De uma promissora pegada “a la Clube dos Cinco”, Everything sucks se transforma num road movie ruim, tosco, mal ajambrado — que não chega aos pés, não anela nem um pouco o primor de um “Conta comigo”.

Ah, é claro, não podemos esquecer o plot twist a filha do diretor se confessa lésbica para seu namorado negro. Calma, este não é a “reviravolta” do roteiro — porque isso, de certa forma, está implícito desde o momento em que a personagem começa a ser apresentada ao público, já no primeiro capítulo.

twist é que ela acaba se apaixonando — e sendo correspondida! — justamente, pela gostosa/burra/maltratada musa da trupe teatral (que no começo da série, chegou a praticar bullying contra ela).

E é aqui que a série perdeu a oportunidade única de abordar o tema da “descoberta da homossexualidade”, num contexto dramático — que foge do óbvio, mas não, da realidade: uma garota órfã de mãe (ela se suicidou), filha do diretor de escola (onde ela estuda), de uma pequena cidade tediosa (Boring, literalmente), que reprimida, se viu obrigada a guardar pra si todos seus segredos e dilemas.

Quantas garotas (e garotos), com alguma diferença pontual em suas biografias — troque “mãe suicida” por “mãe ausente”, “pai abusador”; troque “filha do diretor”, por qualquer outro “papel social” relevante, como “filha do gerente do banco”, “filho do juiz”, “neta do fazendeiro rico”, e teremos milhares de dilemas semelhantes.

Só que não. O roteiro, justamente no desfecho da temporada, faz um aceno fácil aos ativistas LGBT: transformar uma personagem essencialmente feminina (assumidamente “fogosa”, “sexualizada”) numa neolésbica, apenas para transformá-la em par romântico da protagonista insossa, estragou o roteiro.

E é justamente isso que a Netflix parece não enxergar: todas as séries em que faz um aceno ao politicamente correto, acabam sendo canceladas por falta de interesse da MAIORIA do público.

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Comentário

Teamajormar Almeida

Advogado. Pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho.

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