Pe. Fábio de Melo quase foi proibido de gravar no Theatro Municipal

Há algum tempo venho observando um fenômeno crescente no Brasil: o da repulsa de agentes estatais à religiosidade popular — o que alguns chamam de “cristofobia” — em detrimento de outras manifestações ideológico-sincréticas, como a proteção ao candomblé e umbanda como manifestações culturais ou traços da identidade antropológica dos ditos afrobrasileiros.

Como agnóstico assumido — por favor, não confunda agnosticismo com ateísmo! — creio estar respaldado a criticar, abertamente, essa idiossincrasia que tem pululado nas ações de certos agentes públicos, que colocam suas paixões e ideologias pessoais à frente de suas atuações profissionais.

Parece ser o caso de procurador da república  — provavelmente, um ateu inconfesso — que se notabilizou por ajuizar ações civis públicas contra pastores televisivos, como Silas Malafaia (relembre o caso aqui); ou por tentar retirar a expressão “Deus seja louvado” do dinheiro nacional (o jornalista Reinaldo Azevedo, escreveu ótimo artigo sobre isso); ou ainda a retirada de crucifixos em repartições públicas (mais uma vez, com a palavra Reinaldo Azevedo).

Quase sempre, tais ações tem origem em “representações” feitas por “entidades civis” — as tão famosas “ONGs”, cujas pautas e ideologias, já mereceram um ótimo artigo no Spotniks — dando aos agentes políticos uma salvaguarda: eles não estariam fazendo nada de errado, apenas cumprindo suas funções institucionais. Será?

Somente um abobalhado poderia ignorar sinais tão claros, de haver uma orquestração muitíssimo bem azeitada, entre os mais diversos aparelhos à serviço da esquerda: temos ricas fundações com seus intere$$es financiando ONGs em países subdesenvolvidos; ONGs, que por sua vez, fazem um forte trabalho de doutrinação, com vistas a formar uma base de fieis seguidores, apta a elegerem representantes para cargos políticos; parlamentares, que defendem mudanças na lei, para favorecerem as pautas que defendem; chefes de Poder Executivo (municipal, estadual ou federal), destinando gordíssimas verbas estatais, para irrigar tais ONGs, e dar inicio a um novo “ciclo vicioso”.

Certamente alguém vai me questionar: “ah… mas um cargo do MPF, só por concurso público!!! seu raciocínio não convence”. Ocorre que o marxismo cultural é muito mais profundo — e por isso mesmo, atua nas profundezas, longe dos olhares da maioria das pessoas; e não raro, é de se concluir que certas “medidas protecionistas”, como as cotas em universidades públicas e concursos públicos, na verdade, tratar-se-iam apenas de verdadeira tática de “infiltração” do aparelho estatal, por adeptos de tais ideologias.

Para entender o que é “marxismo cultural” e da influência de Antonio Gramsci, sugiro ler este texto do Felipe Moura Brasil; já para mostrar como as “cotas sociais” são uma falácia, recomendo outro texto do Spotniks.

Sobre isso, prometo, escreverei um artigo — e mais uma vez, direi: como pardo, gordo, agnóstico, egresso de escola pública no ensino médio… creio satisfaço vários critérios de “minorias”; por hora, vale mesmo à pena recorrer a uma imagem… este é o ciclo a qual me refiro:

Antes do advento de “cotas públicas” — um artifício legal, disfarçado de “política social” — a ideologia de esquerda já dominavam as salas de aula: tanto no período de formação básica (ensino fundamental e médio), quanto (e, principalmente!) nas universidades. Logo, para ficarmos apenas no exemplo do procurador da república, ele pode não ter qualquer “vínculo consciente” com tais entidades… mas suas ações revelam o quanto sua essência está permeada das ideologias e pautas defendidas por elas!

Dito isto, voltemos ao Padre Fábio de Melo: em sua biografia oficial, escrita pelo jornalista Rodrigo Alvarez, há uma passagem reveladora: na gravação do DVD “Deus no esconderijo do verso” — uma superprodução bancada pela multinacional Sony Music — a produção encontrou uma dificuldade inesperada, justamente, na escolha da locação para o show.

O padre Fábio, na altura dos acontecimentos (isso ocorreu em 2015), já possuía uma trajetória artística tão musculosa quanto o próprio padre; campeão absoluto de venda de CDs e livros, suas canções, textos e poemas já transcendiam os limites do “gueto religioso”, alcançando pessoas fora da Igreja, gozando de prestígio e reconhecimento junto a outros inúmeros artistas já consagrados.

Contudo, a direção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro quase proibiu a gravação do show naquele local. Justificativa: o artista seria padre; e o conteúdo do show, seria “religioso”… tudo incompatível com a “laicidade estatal”, já que aquele local era patrimônio público.

Absurdo! O que diferencia, por exemplo, Fábio de Melo de Chico Buarque — no quesito “artista”, que fique bem claro – senão, o mero patronímico “Padre”? Ambos são compositores, que recorrem a uma construção litero-musical, por vezes, rebuscada, para a maioria das pessoas.

Contudo, Chico Buarque já defendeu e se engajou, pessoal e artisticamente, na defesa de partidos políticos e pautas de esquerda; oras, se a “imparcialidade” no uso da coisa pública fosse ser respeitada, então teremos que banir todos os artistas em razão daquilo que acreditam, e das verdades que professam em suas obras!!!

Ademais, a justificativa por si só, é estapafúrdia. Primeiro, porque a própria Constituição assegura proteção especial ao “sentimento religioso” e ao “patrimônio cultural” — ou alguém dirá que as obras de Aleijadinho (pra ficarmos num exemplo brasileiro), retratando figuras religiosas, não é cultura? Ou que o Círio de Nazaré, em Belém do Pará, não é uma manifestação popular do povo paraense? Só aqui, o argumento acima já seria demolido…

Mas em segundo lugar, há um certo histronisma, uma certa confusão — que volta e meia, é atiçada como braseiro, por atitudes tresloucadas como as ações mencionadas no começo deste texto — que insiste em tentar emplacar a tese de que o tão propalado Laicismo Estatal seria a mesma cois que Ateísmo Político-jurídico. Nada mais mentiroso…

Todo mundo que estuda o básico de ciências políticas, sabe que todo Estado (politicamente falando) é a conjunção de três elementos: um povo, um território e a soberania. Essa última, evidente, só é exercida mediante a Organização do Estado, sob o ponto de vista Político e Jurídico. Vale dizer: com a existência de uma Constituição (que pode ser escrita ou não; formal, rígida ou flexível; que pode ser outorgada ou promulgada, etc).

Logo, podemos afirmar que a Constituição é o ALICERCE de um Estado. Qualquer Estado (aqui, com “E” maiúsculo, para diferenciar das unidades federativas, comumente chamadas de “estados”). E no caso do Brasil, a carta constitucional vigente foi promulgada em 1988, por uma assembleia constituinte popular, devidamente eleita pelo voto direto. Portanto, não vale gritar, espernear, dizer que a nossa Constituição foi enfiada “goela abaixo” do “povo oprimido”, por um “parlamento ilegítimo” que estava “dominado pelas elites”.

Agora, faço um convite: leia o PREÂMBULO da Constituição — sim: é a “abertura” do texto constitucional. Olha o que está escrito lá:

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.

Grifo nosso: “sob a proteção de Deus”.

Posso até não crer na ideia de um Deus monoteísta, como a professada por judeus e muçulmanos; ou de um Deus Uno e Trino, como creem cristãos (católicos e protestantes); ou de uma “cidade celestial”, como os espíritas… mas hei de reconhecer que a assembleia que promulgou nossa Constituição, invocou a proteção de Deus, para nortear seus trabalhos.

Oras; evidentemente, se “Deus inspirou” os trabalhos dos constituintes, não posso admitir que (quase) trinta anos depois, alguém diga: “hey, quando se diz que o Estado é laico, quer dizer que não admite a ideia da atividade estatal ser, sequer, inspirada ou guiada por esse poder sobrenatural”.

Mas a verdade precisa ser dita: esse pessoal de esquerda se ressente da maioria do povo brasileiro ser conservador; e mesmo após cinco governos federais de inspiração socialista (8 anos de PSDB + 13 anos de PT), eles não conseguiram convocar uma nova assembleia constituinte, para extirpar a “moral teísta” da sociedade brasileira. Por isso, digo: como agnóstico, tenho o direito de não crer em nada; mas não tenho direito de fazer impor o meu pensamento, minha forma de enxergar o mundo, ignorando a vontade e fé da imensa maioria da população.

Em tempo: o livro não deixa claro COMO e QUEM contornou o obstáculo; apenas deixa claro que tudo transcorreu bem, o show aconteceu e foi devidamente registrado em DVD/BlueRay. Ah, esse “laicismo de conveniência”…

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Redação DireitoFácil.NET

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