O melancólico fim da Abril

A notícia de que o grupo Abril havia ingressado com uma ação de recuperação judicial em agosto de 2018, não causou espanto – afinal, outras gigantes do mercado de publicações como Saraiva e Cultura, também ingressaram na fila do “devo não nego, pago se, quando e como eu puder”.

Contudo, o anúncio de sua venda por simbólicos 100 mil reais, às vésperas do Natal de 2018, causou inúmeras reações, que variaram entre a incredulidade, o espanto, a tristeza — e até uma ponta de satisfação, por parcela considerável da sociedade.

Isso porque, ao longo de seus mais de 60 anos de história, o grupo Abril participou ativamente dos rumos da sociedade brasileira; seja marcando a infância (com as histórias em quadrinhos da Disney, Marvel e DC) e adolescência (Capricho, Superinteressante e, ah… a Playboy!!!) de muita gente; seja cobrindo e reportando os inúmeros revezes da história política e econômica do Brasil (por meio de títulos que se tornaram marcas poderosas e conceituadas, como VEJA e EXAME).

Mas com a morte do seu fundador, a Abril passou a se reinventar — e explorar novos nichos de mercado; passando pelo lançamento da mítica MTV Brasil, pela uma sociedade (posteriormente desfeita) com o grupo FOLHA para fundação do UOL, chegando até mesmo, a criação da TOTAL EXPRESS (uma empresa de logística para atuar no comércio eletrônico, competindo com os Correios).

Nem gregos, nem troianos

Ao longo de tanto tempo, não raro, haver algumas “flutuações de humor” em seus mais diversos títulos — variações na linha editorial de tais publicações — motivadas seja por razões mercadológicas, seja pelo toque (e idiossincrassias) pessoal dos chefes de redação. Tudo dentro da mais perfeita normalidade, fruto da cultura organizacional cunhada por Victor Civita, que prezava a pluraridade de ideias e inovação constantes.

Seja como for, a Abril seguiu não agradando nem gregos, nem troianos; a cada nova “aposta” em uma linha editorial, o grupo seguiu amealhando novos séquitos de críticos (leitores e acadêmicos) ou desafetos (políticos e ex-empregados).

Um bom exemplo disso: o jornalista Luis Nassif (que começou sua vida profissional em Veja, mas notabilizou-se na Folha), em julho de 2015  (ou seja, três anos antes do pedido de recuperação judicial) escrevera o seguinte:

“Os anos 2.000 marcam o início da decadência final do grupo. Globalmente, a Internet vitimiza o segmento de revistas. Civita decide, então, importar o estilo Rupert Murdoch. Incorpora o linguajar agressivo da ultradireita, inaugurando o estilo com a campanha contra o desarmamento; passa a vender sua opinião de forma imprudente (como ocorreu com o banco Opportunity), alia-se à organização criminosa de Carlinhos Cachoeira, beneficiando-se da complacência do Ministério Público Federal, e tenta se valer do temor que infundia para se aventurar no mercado de livros didáticos e, mais à frente, de cursos didáticos.

A Abril da coleção Os Pensadores, da revista Realidade, da História da Música Popular e de outros feitos culturais, cede lugar ao mais pernicioso jornalismo de esgoto da história da imprensa brasileira. “

Pode-se discordar do teor virulento do artigo, uma vez que Nassif, notório defensor dos governos de Lula e Dilma, estava descontente com a linha anti-petista adotada por VEJA e EXAME; contudo, seu texto em CARTA MAIOR, não deixa de conter uma previsão que mostrar-se-ia certeira!

Outro texto bastante interessante, escrito por gente “lá de dentro” da Abril, foi publicado na revista PIAUÍ: trata-se do relato de Claudia Giudice, uma dos inúmeros diretores demitidos, após sucessivas trocas de gestores no grupo, nos últimos anos:

Os últimos parágrafos da crônica anunciada por Roberto Civita formam uma equação simples. Gestão ruim + negócios em crise + gastos exagerados + falta de confiança nos herdeiros = falta de dinheiro. Dias antes do pedido de recuperação judicial, os bancos fecharam a torneira do crédito. O caixa secou e a decisão de pedir a recuperação judicial tornou-se irreversível. Com ela, os herdeiros viram uma oportunidade de se verem livres do negócio e de sua dívida.

Recuperação judicial é ruim para a empresa, que confessa: devo, não nego e pago quando acabar o processo. Pior para os credores que estão na boca do povo. A lista é pública. A lista é despudorada. Revela o salário, o CPF, o endereço, o CEP de todos os que não foram pagos pela Abril. Entre eles estavam os demitidos e também os funcionários sobreviventes. No primeiro clichê de agosto estavam pequenos e grandes prestadores de serviço. Empresas micro e gigantes do Brasil e da Finlândia. Bancos reunidos sob o guarda-chuva da corretora Planner, que atua como agente fiduciária e era credora de 1 bilhão de reais da dívida. No rol inicial, para meu espanto, estavam também os três herdeiros do grupo Abril. Giancarlo Francesco, Roberta Anamaria e Victor Neto, que foram citados doze vezes e tinham a receber em torno de 200 milhões de reais.

(….)

Trabalhei na Abril uma vida. Por isso, repito que tenho o meu quinhão de responsabilidade e culpa nesta crise. Só saí porque fui dispensada. Sofri para burro, porque achava que podia fazer a diferença, porque amava e confiava no futuro da empresa. Esse amor não era exclusividade minha. Era coletivo. Para escrever este texto, entrevistei muita gente.

(…)

Quando fala em erros na estratégia digital, Sassaroli se refere a um investimento parrudo feito em uma plataforma de venda de produtos digitais. Batizado de Iba, ele pretendia concorrer com a Apple Store e com a Amazon. Funcionou, mas não conseguiu bater os gigantes. Custou 300 milhões de reais e hoje tem pouca valia. O mesmo excesso prejudicou o projeto Alexandria. Tratava-se de um programa de publishing luxuoso, customizado para a empresa, que custou 100 milhões de reais. Funcionava bem, mas era caro, muito caro, para um mercado em crise. Em 2016, pouco antes de ser desligado, tinha um custo de manutenção anual de 16 milhões de reais. O WordPress, seu substituto, custou 8 milhões.

Infelizmente, Claudia adota um ponto-de-vista que carrega nas tintas da emoção, saudosismo e reverência (culto à personalidade do criador) — o que compromete, sobremaneira, a imparcialidade de seu relato. Um exemplo disso é o parágrafo final de seu texto:

(…) como prefere o jornalista Denis Russo Burgierman, ex-diretor de redação da Superinteressante, uma das marcas inovadoras do grupo. “A empresa foi vítima de um coquetel de crises simultâneas: da mídia, da economia, da sucessão na família. Tenho para mim que a maior foi de confiança. A editora esqueceu de que precisava falar com todo mundo. Embarcou na canoa furada de ter um projeto político e usar suas capas para fazer campanha de ataque a reputações. A ironia é que, quando percebeu e tentou mudar de rumo, foi vítima de suas próprias criações. A direita irracional, cultivada pela Veja, passou a acusá-la de petismo, e abandonou-a também”, disse Denis, que identifica o New York Times como modelo a seguir.

Ele, no entanto, não tem esperança quanto ao futuro da Abril. Eu, otimista incorrigível, tinha. Acreditava que, em boas mãos, as marcas e o espírito da Abril podiam sobreviver. Rezava para que algum investidor se interessasse em gastar dinheiro para garantir a pluralidade de opinião e a democracia no país. Hoje, não sei se minha reza foi forte o suficiente. Aos cuidados de quem Roberto Civita entregaria a árvore que plantou?

Como se vê, nesse ponto — o suposto uso político da empresa, por seus donos — os textos de Nassif e Giudice convergem para um certo ranço ideológico, aquela espécie de “sorriso constrangido incontido”, típico de quem lamenta, mas por dentro, rejubila-se com aquela sensação que só o “viu só? eu avisei” pode lhe proporcionar.

No entanto, como depoimento, o texto de Giudice revela alguns pontos de contato com o relato que mais impressiona: aquele feito por Thales Guaracy — contratado pelo próprio Roberto Civita (filho do Dr. Victor, fundador da Abril), dias antes de sua repentina morte, para modernizar e reerguer a Playboy Brasileira — no qual analisa, com total imparcialidade ideológica, o “suicídio empresarial” levado à cabo pelos herdeiros Civita…

Tudo parecia ir bem, conforme eu havia prometido a Roberto, mas a corrente passara a ser contrária e eu só ouvia reclamações, como a de que estava crescendo demais na internet, o que ocupava muito espaço no servidor.

Em vez de vender, graças a mais audiência, a ordem era abater Playboy a pauladas. Certo dia, um analista de sistemas entrou em minha sala, desanimado. “Hoje consegui derrubar pela metade a audiência de três revistas”, ele disse. “Nunca imaginei que iriam me dar os parabéns por causa disso.”

(…)

Além de vazar para a imprensa a ideia de fechar Playboy, o presidente do Conselho, Giancarlo Civita, deu uma entrevista ao Valor Econômico dizendo que ficaria apenas com Veja e Exame e o foco dos negócios seria a empresa de logística, cuja importância no passado era simplesmente a de entregar as revistas nas bancas de jornal.

A intenção deliberada de se desfazer da empresa era facilitada pela administração ruinosa. Nessa época, seu principal executivo, deixado ainda por Roberto, era Fabio Barbosa – provavelmente a ideia mais incompreensível que Roberto e o próprio Barbosa tomaram na vida.

Homem que vinha do mercado financeiro, Barbosa ocupara o conselho de administração da Petrobras nos tempos em que era presidido por Dilma Rousseff e o Petrolão navegava a pleno vapor. Possuía pouca ou nenhuma familiaridade com um negócio editorial e era uma figura incompatível com um cargo por meio do qual se encontrava à frente de Veja, encarregada de investigar e denunciar, entre outras coisas, o Petrolão.

(…)

Todas as decisões tomadas dali em diante tinham a intenção de derrubar a publicação. A redação em que ficávamos foi reduzida, e o acervo de Playboy, segundo ordens de Dimas, foi literalmente para o lixo, de modo a não ocupar espaço.

Suas decisões atrabiliárias ficaram famosas na redação de Playboy, normalmente recheada por jornalistas afeitos à ironia. Cada vez que ele dava uma ordem, diziam que tinha o “toque de Dimas” – o toque de Midas, mas ao contrário.

Como eu não me dava por vencido, e resistia, as coisas foram esquentando. Até o dia em que foi tomada pela direção da Abril a decisão de fechar o site de Playboy, jogando quem entrava na página da VIP, uma outra revista.

Fechar a área digital, onde eu projetava crescimento, cortava qualquer futuro para Playboy. Eu achava que tinha ainda um compromisso com Roberto, mas dali em diante não havia o que fazer. Nem pude reclamar. Depois da minha saída, também acabaram sendo despejados, um a um, todos os que estavam no andar de cima, de Dimas ao próprio Barbosa.

Conto essa longa história para dizer que não foi a mudança disruptiva do meio editorial que acabou com a Abril. E sim a vontade de seus acionistas. A venda da área educacional por mais de 3 bilhões de reais teria sido mais do que suficiente para cobrir a dívida, que alcançou o 1,6 bilhão de reais. Mas não era isso o que eles queriam. A empresa foi para a recuperação judicial, sem ajuda do dinheiro que passou para as contas privadas dos herdeiros de Roberto.

De fato, a Abril parece estar pagando um alto preço decorrente da sua subserviência aos “governos” de plantão; preferindo o caminho fácil de acariciar o Poder em Comando, para abocanhar anúncios governamentais, publicidades de estatais, ou até mesmo, para se tornar fornecedor de produtos e serviços, o Grupo Abril deu as costas para aqueles que deveriam ser a sua razão de existir: seus leitores.

Como uma “casa de ideias”, a Abril poderia ter mantido publicações que servissem (e agradassem) os mais diversos nichos ideológicos — os famosos fan services que gigantes como Marvel e DC costumam colocar em seus filmes. Mas ao optar em ficar alterando as linhas editoriais de seus principais veículos (notadamente VEJA), de acordo com as conveniências, a Abril abdicou daquele que poderia ser a sua boia de salvação: seus leitores e assinantes.

A Abril poderia aprender com marcas como Apple, Nike, Marvel, Netflix: ao tratar seus consumidores com respeito, dando-lhes exatamente aquilo que esperam, estabelece-se uma relação duradoura e fiel; de um lado, a empresa, se esmeirando em entregar aquilo que seus lovers querem comprar; de outro lado, os fãs, que não se importam em pagar o preço que for, para terem produtos daquela brand que tanto amam.

Nunca a expressão “quem lacra, não lucra” fez tanto sentido. E a FOLHA e GLOBO que se cuidem…

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Comentário

Teamajormar Almeida

Advogado. Pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho.

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