A triste sina de ser um(a) bancário(a) no Brasil

Jornada de trabalho de 30 horas semanais (ou seja: segunda à sexta, seis horas por dia). Local de trabalho climatizado (ar-condicionado). Digitar informações, imprimir contratos, conferir cadastros. Ter plano de saúde, vale refeição e cesta alimentação. Receber participação nos lucros.

Todas essas características do trabalho bancário, fizeram nascer entre a maioria da população, a crença de que tal categoria de trabalhadores é uma espécie de “afortunados”: aqueles que ganham muito, trabalhando pouco. Ledo engano!

A prestação de serviços bancários é um dos raros setores da economia que NUNCA dão prejuízo — e quando dão, simplesmente fecha-se as operações no Brasil; ou vende-se sua(s) carteira(s) de clientes para outro(s) concorrente(s). Até o começo da década de 90, banqueiros não “empreendiam”; o lucro advinha, basicamente, de especulação financeira — algo só possível num país onde a inflação anual passava de 1000%.

Com o plano Real e o fim da mega inflação, os bancos tiveram de reaprender a ganhar dinheiro; e nessa brincadeira, muito “banco grande” quebrou (vide Banco Nacional), foi comprado por outros bancos (a lista é grande, mas fiquemos com três exemplos: Bamerindus, pelo HSBC; BCN, pelo Bradesco; Real, pelo Anro Bank) ou tiveram que unir forças para não quebrarem (Itau com Unibanco).

Basicamente, banqueiros descobriram que para continuarem existindo, deveriam multiplicar a base de clientes (e consequentemente, sua rede de atendimento), investindo maciçamente em tecnologia da informação. Em uma década, portanto, os banqueiros descobriram que era possível ganhar muito mais com tarifas sobre serviços e comissões sobre vendas, empregando cada vez menos mão de obra. Tudo passou a ser informatizado e feito por algoritmos e programas de computador. Maximizou-se os lucros, minimizando-se os custos.

Eis que aqui começa a triste sina de ser um(a) bancário(a) no Brasil: de uma hora para outra, aquilo que até então, era considerada uma mão-de-obra altamente técnica e especializada (e por isso mesmo, valorizada, em termos salariais), passou a ser encarada como um “obstáculo a ser superado”. Em outras palavras: de queridinhos, os bancários passaram a ser um estorvo para os banqueiros, uma despesa que “infelizmente, ainda é necessária”.

Assistiu-se, portanto, um verdadeiro processo de degradação nessa relação patrão-empregado. E a coisa começou pelos salários, que até então, eram sempre reajustados acima da inflação (aumento real), de forma a serem mantidos como um atrativo do mercado para novos profissionais.

Com o fim da inflação, a redução de custos passou a ser uma meta permanente: e a informatização foi o meio encontrado para isso. Tarefas que antes exigiam 50 pessoas, passaram a ser feitas por apenas 5; aquilo que demandava a necessidade de se ter equipes em cada agência, passou a ser centralizado em um lugar só, por uma só equipe (e menor, é claro). Resultado da equação: o número de trabalhadores (especialmente nos bancos privados) reduziu-se em mais de 60%, em pouco mais de uma década.

E os salários? Por um bom tempo, bancários foram obrigados a ficar sem reajuste salarial, sob a justificativa de que os bancos estavam “quase quebrados” — o que não é uma inverdade completa, se olharmos para aquele período, e vermos quantos bancos foram liquidados ou comprados por concorrentes. O salário relativamente acima da média, que era o principal atrativo, passou a sofrer um irreversível processo de achatamento.

Concomitantemente, desenvolveu-se entre os gestores e administradores (leia-se: gerentes e executivos) a filosofia do “quem está insatisfeito, saia; tem muita gente disposto a ocupar o seu lugar, para fazer o mesmo que você faz, e ganhando muito menos do que você ganha“. Nos bancos privados, essa nova “cultura organizacional” encontrou uma grande aceitação entre os bancários, que só “internalizaram” tal filosofia, por medo de perderem o emprego.

E foi isso que fez surgir uma prática odiável e reprovável — que hoje, a doutrina chama de “Assédio Moral” — que se alastrou como uma praga nesse setor.

Metas cada vez mais irrealizáveis; salários cada vez menores; riscos de assaltos e sequestros; relações interpessoais cada vez mais degradantes… tudo isso resultou num processo de adoecimento coletivo, com bancários desenvolvendo transtornos psiquiátricos diversos: de estresse agudo a transtornos ansiosos, passando por síndromes de esgotamento (burnout), agorafobia e pânico generalizado. Desde 2010, a Previdência Social tem observado que a principal causa de afastamento do trabalho, entre bancários e bancários, é justamente a ocorrência de doenças psíquicas.

E contrariando o senso comum, os bancários públicos são os que sofrem mais; isso porque os colegas da rede privada, podem simplesmente serem demitidos a qualquer momento — e isso, não raro, é motivo de comemoração por parte deles: uma espécie de “alforria”, uma oportunidade de recomeço de vida, onde pegam seus FGTS e demais indenizações, para abrirem um negócio próprio, ou se manterem enquanto estudam para um concurso público.

Já os bancários públicos, convenhamos, ralaram um bocado para serem aprovados num concurso público; e em consequência disso, fazem jus a uma “garantia de emprego”: só podem ser dispensados, por um justo motivo. E justamente por não poderem ser dispensados sem justa causa, bancários públicos enfrentam um Assédio Moral mais brutal que seus colegas dos bancos privados — tudo isso feito com aval informal dos executivos e diretores.

O pensamento que vigora entre tais gestores é, mais ou menos, o seguinte: “se eu não posso mandá-lo(a) embora, vou fazer da vida dele(a) um inferno, a ponto dele(a) pedir pra sair… e aí o banco economiza com a multa rescisória, e colocamos um(a) empregado(a) novo(a) em seu lugar, que pode ser moldado(a) segundo as necessidades da empresa“.

Então, quando bancários fazem greve, não estão pleiteando apenas melhores salários; é contra tudo isso e mais um pouco, que estão lutando também. E você provavelmente nem sabia disso, porque os Bancos fazem de tudo, para que tais casos não venham à tona. Gastam milhões de reais em “pesquisas de clima”, que manipuladas a seu bel prazer, distorcem a realidade, fazendo que tais empresas sejam “arroz de festa” na lista de “as melhores empresas para se trabalhar”. Pura balela!

Por isso, faço um pequeno desafio: antes de condená-los por fazerem greve todo ano, que tal conversar com alguns bancários, e perguntar como é trabalhar em banco, nos dias atuais?

Certamente você vai mudar aquela falsa percepção a qual nos referimos, lá no começo do texto. E passará a compreender que todos aqueles “benefícios” acima, mais das vezes, não compensam o sofrimento e doenças que bancários adquirem, só pelo fato de serem bancários.

Benefícios, pero no mucho

Já repararam nas notícias sobre abertura de concursos para Bancos públicos? Quase sempre a imprensa apresenta um valor de salário espetacular… Só que não é a realidade!

Particularmente, eu já desisti de entrar nos comentários de tais sites, e tentar corrigi-los. Para mim, além de desinformação, tal prática irresponsável só contribui para se propagar aquela falsa percepção que a sociedade tem acerca dos bancários.

Quando algum jornal ou site desses noticia que o “salário inicial” é de R$3.500,00 para o cargo básico, não está apenas exagerando: está mentindo deslavadamente. O que eles fazem é somar aquilo que é remuneração (salário propriamente dito) com benefícios recebidos (vale refeição, cesta alimentação, auxílio-creche, etc) e PLR.

Remuneração, segundo a CLT, é tudo aquilo que o empregado recebe em dinheiro ou espécie, e que sobre tal montante, incide contribuições sociais (INSS e FGTS) e impostos (IR). Benefícios, por outro lado, são incentivos que o empregador dá, seja por mera liberalidade, seja por incentivo do próprio governo.

Dois exemplos desses incentivos: o “vale cultura” e o “vale refeição/alimentação”. Ambos os casos, trata-se de programas previstos em lei, que geram certas obrigações aos empregadores, proporcionando-lhe, contudo, incentivos fiscais (aquilo que eles “dão” aos empregados, dentro daquele programa, pode ser deduzido de certos tributos federais que têm a pagar.

Só que ninguém explica que, tais benefícios, são concedidos ao trabalhador APENAS e SOMENTE SE estiver em atividade. Se o trabalhador adoecer e se afastar pelo INSS, ele ficará sem receber nada disso; se a trabalhadora engravidar, idem. A situação é pior ainda, quando ocorre a aposentadoria: todos esses benefícios deixarão de ser pagos, em definitivo.

Note que para o trabalhador, receber tais “benefícios”, não compensa. No longo prazo, tudo aquilo que ele recebeu a titulo de PLR, de vale-isso ou vale-aquilo, não terá sido considerado como base de cálculo para FGTS ou INSS (porque a lei assim prevê), não se incorporando ao seu patrimônio acumulado. Logo, tais benefícios compensam mais aos bancos, que aos trabalhadores.

Companheiros, companheiros… bancários à parte.

E para piorar a situação, especialmente dos bancários públicos, temos que lembrar um fato histórico: a CUT, ligada ao Partido dos Trabalhadores (PT), fundou a CONTRAF (Confederação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro), entre o ano de 2003/2004, numa clara ação de esvaziamento da CONTEC (Confederação dos Trabalhadores em Empresas de Crédito), que é a confederação que detém legitimidade, por lei, para representar os bancários.

Como a maioria dos sindicatos de bancários eram filiados à CUT, a mesma impôs que tais sindicatos se desfiliassem da CONTEC e se filiassem à CONTRAF, gerando um “racha” na unicidade da representatividade sindical.

E como o tempo demonstrou, isso só atrapalhou e tumultuou as negociações, pois os banqueiros passaram a ter que se sentar para negociar com DUAS ENTIDADES confederativas. Isso, sobremaneira, engessou a “margem de negociação”, pois cada confederação tem suas prioridades, o que acaba fazendo que as negociações emperrem mais para um lado, e menos para o outro.

Nos anos anteriores, se a CONTEC tinha como prioridade discutir a questão salarial, de forma a recuperar as perdas históricas; a CONTRAF, por outro lado, insistia em discutir outras pautas, como “equidade de gênero”, “cotas de oportunidades” (e outras bizarrices que a esquerda adora discutir).

Com isso, a CONTRAF — que congrega a maioria dos sindicatos, dentre os quais, aqueles de praças mais numerosas, como São Paulo, Brasília, Curitiba e Belo Horizonte — mais das vezes, ao atingir um índice de reajuste que considerasse “aumento real”, acabava abandonando esse ponto, para negociar os tais pacotes de “benefícios”. Não raro, por vezes aconteceu da CONTRAF considerar as negociações “encerradas com sucesso”, desmobilizando todos os sindicatos a si subordinados, enquanto a CONTEC desejava permanecer negociando um índice maior.

E isso, por si só, fazia a greve ser encerrada num canto do país (não por acaso, nos maiores centros, dominados pela CONTRAF), e se postergar em outros locais (no Norte e Nordeste, onde a CONTEC tem representatividade).

Outro fato a se ponderar: a comissão dos bancos (FENABAN) é formada por representantes dos maiores bancos, dentre os quais, QUATRO são públicos: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco do Nordeste e Banco da Amazônia.

E tendo sido o Governo Federal, nos últimos treze anos, comandado pelo mesmo PT, que controla a CUT, é evidente que as greves foram encerradas pela CONTRAF, de acordo com os interesses do partido. Especialmente, em anos de eleições, para não prejudicarem os candidatos do PT ou por ele apoiados, em praças importantes como SP, RJ, MG e PR.

Como se dizia por aí: “companheiros, companheiros… bancários à parte”.  E agora em 2016, com o PT fora do Governo Federal, vemos mais uma vez a greve ser regida, não pelos interesses dos bancários, mas pelas necessidades da CUT e do PT. Quando se participa de uma assembleia de bancários, ou se caminha entre piquetes, tem-se a impressão que a pauta é “primeiramente, Fora Temer… e segundamente, todo o resto”.

Entendem agora como é realmente triste a sina de ser um(a) bancário(a) neste país?

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