20 anos sem solução: um talão de cheques furtado e as consequências jurídicas

cheque-protestado-fw
Para o autor, vítima de protesto indevido de um cheque furtado, há quadrilhas especializadas em extorquir outras vítimas como ele.
Por Ivan Sant'anna¹

Há aproximadamente 20 anos (sim, 20 anos) eu estava no supermercado Paes Mendonça (atual Extra) da avenida das Américas e deixei minha minha carteira de dinheiro e documentos no carrinho de compras por alguns segundos. Quando me dei conta, algum ladrão me levara todo o dinheiro, talão de cheques do Banco Real e documentos.

Registrei o Boletim de Ocorrência na polícia e sustei os cheques no banco. Havia uns oito cheques em branco.

Um deles, no valor de R$ 160,00, foi usado para pagamento de uma compra em São Gonçalo, do outro lado da baía. Alguém tentou descontá-lo no banco mas não conseguiu. Só que, ao invés de segurar o cheque no caixa e chamar a polícia, e também me avisar, o banco apenas não pagou os 160 reais e devolveu o cheque à pessoa que tentava descontá-lo.

Passados alguns meses, um escritório de cobrança de São Paulo, dizendo-se representante da firma L.L.F. Ltda, de Itaguaí, que alguém pôs como favorecida do cheque, me enviou um fax do dito cujo. Os caras queriam que eu pagasse os 160 reais mais honorários advocatícios, cujo valor nem cheguei a perguntar, já que não pagaria nem os 160 reais, muito menos honorários.

Na verdade, não pagaria nem um real, já que a assinatura nada tinha a ver com a minha e o cheque era roubado, sustado, e registrado como tal.

Como não paguei, eles me protestaram em um cartório de Guarulhos (vejam o percurso até agora: Av. das Américas, São Gonçalo, Itaguaí, São Paulo, Guarulhos) que mandou meu nome para o Serasa.

Entrei na Justiça contra a tal L.L.F.L, pedindo reparação de danos morais, no foro de Itaguaí (RJ), município sede da L.L.F.L. Enquanto isso meu nome ficou no Serasa e no SPC durante 14 anos até que um cartório de Londrina, no Paraná (sim, Paraná, acredite) recebeu o “cheque viageiro”, se reusou a protestá-lo e mandou tirar meu nome do Serasa e do SPC.

Eu até havia me esquecido do assunto quando ontem, dia 28 de outubro de 2016, recebi uma intimação via postal do Cartório da 1ª Vara Cível do Tribunal de Justiça da Comarca de Itaguaí, me dando cinco dias (sim, cinco dias) para “dar andamento ao feito” (não sei exatamente o que significa isso mas suponho que seja “dar andamento à ação de pedido de indenização moral a L.L.F.L Laminadoras de Ferros Ltda”).

É claro que não irei lá e a ação será extinta.

Não vou porque acho que a L.L.F.L. é apenas uma empresa de fachada, parte de uma quadrilha que compra cheques roubados para extorquir as vítimas. E não vou tentar achar meu advogado daquela época (me lembro que o primeiro nome dele é Sérgio) para irmos a Itaguaí. Vou acabar gastando mais dinheiro à toa.

Numa das vezes que fomos ao Foro de Itaguaí, meu advogado e eu procuramos o endereço da L.L.F.L. (Rua Argentina da Silva Coutinho, 20) e descobrimos que essa numeração não existia na rua.

Fico imaginando a quantidade de pessoas dos meios do Judiciário que se envolveu nesse meu processo, nem que seja empurrando-o num carrinho de mão para lá e para cá, e quanto isso não custou aos contribuintes, em horas inúteis de trabalho. O que me parece, num raciocínio kafkiano, é que a justiça só existe para isso: para sustentar juízes, promotores, advogados, meirinhos e empurradores de carrinhos de mão.

Ao lesado, ao roubado, à vítima, só resta correr deles como o diabo corre da cruz.

Em algum momento dos próximos dias, algum juiz ou juíza de Itaguaí, vai dizer “caso arquivado”. Enquanto isso, os escritórios de cobrança estarão, através de seus agentes, comprando cheques roubados nos quatro cantos do país.

Algumas pessoas não são tão jumentas como eu… e pagam.


ivan-santanna-fw

 

 

 

 

¹ IVAN SANT’ANNA é jornalista e escritor, tendo atuado por muitos anos no mercado financeiro e roteirista de programas de TV (Linha Direta e Carga Pesada). Autor de inúmeros best-sellers, como “Pouso Forçado”, “Plano de Ataque”, “Em nome de sua majestade”, “Bicho Solto”, entre outros.

Use o Facebook para comentar e divulgar

Comentário

%d blogueiros gostam disto: