DIALETO REGIONAL

10 expressões usadas por quem vive em Corumbá

Tudo pronto para passar o Carnaval em Corumbá/MS?

Hotel reservado, carro abastecido, abadá comprado. Mas está faltando só mais uma coisa: um rápido GUIA DE CORUMBAÊS que o portal DIREITOFACIL.NET preparou para você.

A gente não vai tirar onda com o sotaque típico de Corumbá, Ladário e região — uma mistura exótica do acento cuiabano, do chiado lusitano e da malemolência carioca.  Quanto a isso, existe uma ótima matéria que a TV Record MS preparou, há alguns anos atrás.

Conquanto ladarense nato que sou e filho legítimo de uma corumbaense, que lá residiu por alguns anos na minha infância e adolescência, tenho conhecimento de causa — e legitimidade para “tirar sarro”, sem ser taxado de “preconceituoso” ou “bairrista” — para falar desse assunto.

Mas acredite: minha ideia não é fazer graça. O assunto, em si, acaba tomando certo grau de comédia, em razão das reações que muitos leitores ou leitoras terão ao ler este texto; mas, de forma alguma, meu intuito é menosprezar a cultura daquela região. Muito pelo contrário!

10) Alas!

Não tem nada a ver com as “alegorias” de escola de samba — “alas das baianas”, “alas da velha guarda”, etc. O alas para o corumbaense, tem outro significado.

É interjeição; não substantivo. Serve para designar uma reação de espanto, de surpresa, de incredulidade: “Alaaaas, não acredito que fez isso”.

Como a presença árabe — sírios e libaneses — é muito forte naquela região, penso que essa expressão tenha origem no termo Allah (Deus, em árabe).

Assim como católicos têm por hábito reagir com um “Ave, Maria” ou “Minha Nossa Senhora” quando surpreendidos por algo ou alguém, muito provavelmente, os árabes que imigraram para Corumbá — e moravam no fundo dos estabelecimentos comerciais que mantinham — também deviam reagir, usando alguma expressão contendo a palavra “Allah”.

Como o “for all” que virou “forró” — a expressão nasceu de festas promovidas na base aérea norte-americana (“open for all”), no nordeste brasileiro — o “Allah” pode ter virado “Alas”. Simples assim.

09) Êta pêga

Aqui há um regionalismo de um regionalismo. Provavelmente, alguma presença mineira na região, deve ter popularizado a expressão “eita”. Já o “pêga”, para mim, é um mistério.

“Êta pêga” é outra interjeição, um grau acima do “Alas”: “Êta pêga… olha a cagada que o cara fez”.

08) Ipuuuuuu

Sabe quando alguém tropeça numa pedra, num degrau, e vai ao chão? Ou cai de bicicleta? Pois é: se o tombo não for tão feio, poderá despertar em algumas pessoas, um desejo incontrolável de rir — ou você vai dizer que NUNCA riu de alguma videocassetada? 

Pois bem: em Corumbá e Ladário, a coisa vai um pouco além. Não basta rir. Você precisa tirar sarro de quem sofreu a queda, o tombo. Ainda mais, se a pessoa caiu, após você admoestá-la a não fazer tal coisa.

É para essas ocasiões que existe o “Ipuuuuuu”. Ou sua variante, “irruuu”. Eu tenho duas teorias possíveis para a origem dessa expressão:

a) quando havia cinema em Corumbá, e a maioria dos filmes em cartaz, eram sobre o “velho oeste”, muito provavelmente os gritos “Yahoooo” dos caubóis, podem ter sofrido uma corruptela.

b) em razão da forte influência paraguaia, especialmente após a invasão das tropas de Solano Lopez, houve absorção de certas palavras oriundas do guarani. Como “ipu”, em guarani, significa tanto “árvore” como certa espécie de “abelha”, parece haver certa correlação com o uso que se faz de tal expressão. Ou você não imagina alguém gritando em guarani, que alguém caiu da árvore (…. ipu) ou que tomou uma carreira de um enxame de abelhas (… ipu)?

07) Varado

Adjetivo que significa “faminto”. Não parece ter qualquer origem jurídica — vara. Acho que o sentido da expressão tem origem nos termos “varar a madrugada” ou “varar a noite“.

Como Corumbá e Ladário são cidades com forte presença militar — Exército e Marinha, respectivamente — acredito que a expressão acabou derivando daqueles soldados ou marinheiros que, estando de plantão, não podiam abandonar seus postos de vigilância, até serem rendidos por outros colegas de farda.

Logo, varavam toda a noite — e só iam comer, ao final do plantão. Estavam, pois, “varados sem comer”. Com o passar do tempo, a expressão sofreu uma elipse (“sem comer” sumiu, ficando subentendida no contexto).

06) Atolo!

Os nutellas que me perdoem, mas esta aqui, só os corumbaenses raiz sabem — e usam! Aos desavisados de plantão, quando alguém disser “atolo” para você, significa algo assim:  “tô fora”, “tá louco?”, “nem morto”. 

Parece-me que a origem tem a ver com o verbo “atolar”: no tempo em que a estrada que ligava Corumbá à Campo Grande não era asfaltada, era comum, na estação das chuvas, os carros “atolarem”.

Quando isso acontecia, era algo muito, muito ruim — imagine você ficar atolado, numa estrada de terra, no meio do nada (Pantanal), sem ter como pedir ajuda? Pois é… “atolar” passou a ser sinônimo de algo ruim, de má sorte.

05) Duro

No corumbaês, “duro” é usado como advérbio de intensidade. Ex: “ele correu duro” = “Ele correu rápido demais”;  “Ontem choveu duro aqui” = “Ontem choveu muito, demais da conta”).

04) Leso

Leso — ou sua variação, lesado — é adjetivo. Significa “estar duro”, “sem grana”: “eu tô duro hoje” = “estou sem grana”. 

03) Puto

Não tem nada ver com o homem que pratica a profissão mais antiga do mundo. Mas, se “puto” não é sinônimo de “michê”, o que significa isso em Corumbá? Depende. 

Pode ser um substantivo para dinheiro (“eu tô sem um puto no bolso”) ou um meio mais firme de se referir a alguém, com quem tem relativa relação de amizade e confiança (“vem cá, seu puto, que eu tô te chamando).

Parece ser uma típica influência dos militares (da Marinha) vindos do Rio de Janeiro, para servir na Base Fluvial de Ladário. A origem está na expressão “tô puto da vida”.

02) Xexar

Se caísse essa palavra no Show do Milhão, você certamente não saberia responder! “Xexar”, em Corumbá e Ladário, é verbo comumente utilizado para designar o ato de furtar, de se apropriar indevidamente de algo que não lhe pertence.
Ex: “Fulano xexou o casaco da Beltrana”; “Meu filho, deixe de xexar as coisas de sua tia”; etc.

01) Pixito

[+18] “Pixito” é sinônimo para pênis. Se em outros lugares, o membro sexual masculino tem incontáveis apelidos — pinto, piroca, pau, cacete, caralho, bráulio, rôla — em Corumbá e Ladário, é pixito mesmo.
Ah, também pode ser utilizado como uma forma de resposta rude, grosseira. Quando alguém lhe fala algo que desagrada e você responde apenas, “teu cu”.
Na verdade, a resposta era originalmente assim: “meu pixito pra você” — mas acabou, com o passar do anos, sofrendo elipse nos demais termos. Hoje, quando alguém quer responder de forma curta e grossa, diz apenas “pixito” — acrescido de um gesto (dedo médio em riste).

BÔNUS: 11 – Vôti

Interjeição de ojeriza, que tem o mesmo significado de “cruzes”, “que horror”.

BÔNUS: 12 – Tá safo, tudo safo!

Dica de um amigo meu (lá no Facebook).

Essa expressão significa “está tudo bem”, “está tudo certo”. O Ênio (quem deu a sugestão), acha que é uma expressão carioca, que acabou sendo incorporada ao vocabulário popular corumbaense, que decorre da expessão inglesa “it’s safe”. 

Mas além de ser usada como locução adverbial, “safo” pode ser usado como adjetivo, para designar qualquer pessoa que seja capaz de resolver qualquer problema, sozinho(a). Ex: “Fulano é um cara safo”; “Beltrana é uma mulher safa”.

E você? É de Corumbá ou Ladário e sabe de alguma outra expressão típica de lá? Então fale pra gente, nos comentários deste post! Quem sabe a gente não faz uma parte 2, só com as sugestões de nossos leitores?

 

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